As pegas – a vida no Ribatejo | Fialho de Almeida

As pegas e o mito de Hércules

As pegas são um desfecho de espectáculo que em boa lógica taurina não poderá subsistir com a morte à espada, mas que eu no entanto gostaria de ver continuar nos redondéis cá do País.

Pela pega realiza o toureiro o mito de Hércules, domando a pulso forças da natureza hiantes contra ele; mesmo fora do simbolismo duma tal luta, nada mais do que considerando apenas a beleza plástica do esforço, que maravilhosas satisfações instintivas de orgulho não causa à plebe, com os seus músculos de carga, e a sua gama sentimental restrita a factos simples, o ver-se a primeira na escala dos brutos!

Acresce que sendo a pega invento pátrio, e não cumprindo desnacionalizar a tourada portuguesa além dos pontos em que ela está incompleta ou mal compreendida, forçoso vai ser conservá-la, a despeito de tudo, ao lado da sorte de morte, fazendo-as, já se vê, praticar em bichos alternados, e remodelando o grupo de forcados pela forma especial que vou dizer.

Hão-de ter visto ferras e tentas nalguma sede de criação ribatejana.

Coisa impetuosíssima de vida, esturderia suprema, plenitude juvenil, hilariança! Na ferra, a rez adolescente, já fantil, saída apenas do hausto das vacas, é subjugada a pulso de maltês, antes de sofrer no flanco o ferro em brasa: eis a pega natural, original: adolescência com adolescência, corno com pulso, bravura de rez com bravura de rapaz.

A valentia da rapaziada

O espectáculo assim compreendido, aberto sem excepção à valentia da rapaziada das aldeias, que necessita ser forte para o trabalho das terras e para a obra da resistência à miséria, companheira inexorável do campónio, é uma espécie de exame público de saúde e validez, que lisonjeia quem vence, hilaria e entusiasma o espectador, dando a média dos torsos robustos, e recrutando nos povoados, para a agricultura, para as armas, para a espécie, a falange sagrada dos futuros lutadores.

A ferra aberta, quem se sente em pletora desce à arena, bate palmas ao bicho, abre os braços e apara-lhe com denodada fereza, o jogo da cabeça ficando, como um cacho contráctil, espendurado entre os cornos, e fazendo deter na carreira o generoso e eléctrico animal.

Não há por certo em parte alguma do mundo, um jogo atlético onde aos requisitos de força venha juntar-se maior soma de factores estatuários – e nada como a escultura para fixar no espírito a instantânea graça da atitude, e envaidecer da sua formosura sublime, o homem forte!

Por que não hão-de ser isto as pegas na tourada?

Em vez de oito borrachões injectados de estupidez, envelhecidos em tombos, fazendo vida de gladiadores sórdidos, e morrendo quase todos do deboche adstrito às suas semanas de ociosidade, por que não faremos das pegas um certame de vida máscula, com inscrição facultada a todos os rapazes destemidos, aos clubes de desportismo atlético, aos jovens ginastas e traga-balas da cidade?

Fonte: Fialho de Almeida, in Portugal – A terra e o homem, antologia de textos de escritores dos séculos XIX – XX, por Vitorino Nemésio (texto editado e adaptado) | Imagem de travelspot