“Mandar às malvas” ou “mandar para as malvas”

“Mandar para as malvas”

Esta expressão provém do facto das malvas terem sido as plantas dominantes no «Campo das Malvas» no Porto, onde se enterravam os malfeitores, ladrões e assassinos, sendo na época um descampado fora da muralha fernandina, na zona da actual Torre dos Clérigos, antes da sua construção em meados do séc. XVIII.

Germano Silva, historiador portuense, registou um episódio interessante sobre esta matéria.

Foi aí enforcado e enterrado um jovem cordoeiro por ter assassinado a navalhadas um outro jovem rival no respeitante à sua namorada. Logo o povo inventou uma cantilena que se trauteava pela cidade:

«Ai Jesus que vou para as malvas
caminhando pelas urtiga
vão os rapazes para a forca
por causa das raparigas».

Curiosa esta cantilena e com mais uma referência botânica muito acertiva – as urtigas.

Flora ruderal

De facto as malvas e as urtigas são duas das espécies vegetais predominantes na denominada flora ruderal, designação que provém do latim «rudere», entulho.

Ou seja, são espécies vegetais nitrófilas que se instalam nas bermas dos caminhos e nos entulhos e nas acumulações de matéria orgânica provocadas pela presença próxima de comunidades humanas – caso das povoações – ou pela proximidade de culturas agrícolas e pecuárias no caso de habitats rurais.

Estes são locais para onde sempre escorrem nitratos e matérias orgânicas que todas as plantas necessitam e de que gostam e as ruderais muito especialmente.

Tudo isto veio a lume por causa de de uma outra planta ruderal, esta mais vistosa que as referidas, o verbasco.

O verbascoVervascum thapsus – é uma planta venenosa de inflorescências vistosas de flores amarelas que lembram candelabros como se pode comprovar na imagem, ao lado das malvasMalva sylvestris – e das urtigasUrtica dioica.

São por conseguinte três das espécies vegetais mais representativas da flora ruderal. Duas delas referidas na curiosa cantilena portuense que Germano Silva publicou numa das suas magníficas crónicas sobre a história e o património da também magnífica cidade do Porto.

José Ribeiro (texto editado e adaptado)