O papagaio – simpática ave sul-americana
O papagaioPapagaio
: brinquedo de papel usado pelos chineses antigos para libertarem a sua agressividade, emprega-se também o nome para designar o simpático pássaro sul-americano que todos nós conhecemos.
São os papagaios muito úteis e práticos por juntarem às vantagens da fala a alta conveniência da estupidez – virtude cada vez mais rara entre os homens onde, graças aos antibióticos, à orientação profissional e aos acordos de desarmamento, a inteligência, graças a Deus, triunfa.
O papagaio não engana: repete quanto ouviu sem nada acrescentar.
Os seus relatos podem, pecar por laconismo mas nunca por excesso, e o seu convívio é agradável e estimado.
Pode ser vector na transmissão de uma doença grave, a psitacose (não confundir com “bicos de papagaio“).
Há papagaios de várias cores mas estão a usar-se mais os verdes e amarelos.
O papagaio alimenta-se como qualquer vulgar ave; não lhe dando a fala privilégios especiais neste campo.
O papagaio do Príncipe de Nassau
Um papagaio de extrema inteligência respondia a todas as perguntas que lhe eram postas.
Era muito velho e tinha um porte imponente.
O príncipe de Nassau uma vez mandou-o vir a fim de o poder admirar.
Estava cercado de criados quando o papagaio chegou e disse:
– Quem são tantos homens brancos?
Perguntaram-lhe então se conhecia o príncipe. Respondeu imediatamente:
– É um general qualquer.
– De onde vens? – perguntou-lhe o príncipe.
– De Surinam.
– Que fazes lá?
– Guardo galinhas.
E, como o senhor de Nassau começasse a rir, o papagaio acrescentou:
– Estás a rir-te! Posso fazê-las também vir aqui.
Imitou então o grito daqueles que guardam galinhas e imediatamente meia dúzia delas entraram na sala.
Papagaios cultos
Rodígimes lembra um cardeal que comprara por cem escudos ouro um papagaio que sabia recitar, sem se enganar, os Actos dos Apóstolos.
Afirma-se, de resto, que outro destes pássaros servia de capelão num barco, dizia as orações aos marinheiros reunidos e recitava em seguida o rosário.
O papagaio de Psaphon
Um certo Psaphon imaginou deificar-se através do seu papagaio.
Ensinou o pássaro a dizer: «Psaphon é um Deus» e largou-o numa floresta cheia de papagaios que passaram a repetir a frase, de tal maneira que alguns índios que nela habitavam se chegaram a convencer da divindade de Psaphon.
O papagaio de Henrique VIII
Goklsmith conta que Henrique VIII tinha um papagaio branco, dotado de grande facilidade de palavra.
Vivia num quarto que dava sobre o Tamisa e tinha aprendido várias frases que ouvia pronunciar aos marinheiros.
Um dia em que brincava no poleiro, perdeu o equilíbrio e caiu ao rio, mas pôs-se imediatamente a gritar: «Um barco!, a mim, um barco! Vinte libras a quem me salve!»
Um barqueiro, confundindo a sua voz com a de um homem afogando-se, acorreu a salvá-lo e levou-o ao rei que o compensou com as vinte libras.
O papagaio de Misa Edwards
Conta André Billy a história deste papagaio por ele bem conhecido e que pertencia à famosa Misa Edwards, introdutora dos «ballets» russos em Paris.
«No seu poleiro», escreve o ilustre membro da Academia Goncourt, «o papagaio de Misa estava tão velho que parecia mais um pedaço de barro do que um pássaro.»
Passava por ter nascido sob o reinado de Luís XIV.
Duas ou três vezes por ano deixava cair do bico estas palavras desencontradas:
– «Isto já não vale mesmo a pena» – Era de cortar o coração.»
Papagaio Gaio
Papagaio insensato,
quem te fez assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?
Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?
Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?
Papagaio triste
papagaio gaio,
quem te fez tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?
Papagaio gaio
quem te ensinou, em meio
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?
Gaio papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo …
Antes fosses
um pássaro mudo.
Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?
Papagaio gaio
gaio, gaio, gaio.
Cassiano Ricardo
in “Almanaque”, Fevereiro de 1960 | Imagem

