A caça no Portugal dos séculos XV-XVI

As espécies cinegéticas capturadas em Portugal

Entre as espécies cinegéticas capturadas no Portugal da transição do século XV para o seguinte, contavam-se o coelho, o urso, o lobo, a raposa, o lince, o gato-bravo, o porco-montês, o veado, o gamo, o cabrito-montês, a lebre, a perdiz, o pato-bravo, a rola, o gaio, a narceja e a galinhola.

Estes animais capturavam-se à noite, mediante o auxílio de cães, furões e uma quantidade significativa de armadilhas, das quais destacamos as redes, os cepos e os laços corredios.

A denominada rede de ser, que as fontes não permitem definir, utilizava-se na caça ao coelho e à perdiz.

Na caça com boi, (…) um indivíduo camuflado com peles daquele bovino deixava as aves, nomeadamente, as perdizes, aproximarem-se de si e, em seguida, procedia à respectiva captura.

De salientar, no entanto, que os monarcas, por vezes, proibiam este tipo de caça. Os cepos, que ainda hoje se utilizam, estavam indicados para os animais de maiores dimensões, como as raposas e os lobos, assim como os cervos e outros herbívoros de grande porte.

O funcionamento de um cepo recorre à elasticidade de uma mola que obriga dois semi-círculos dentados a fecharem-se sobre si, quando o animal, pisando o interior da armadilha, faz com que esta se desarme.

O laço corredio, (…), era constituído por um nó de correr que deslizava sobre a extremidade oposta da corda, fazendo com que a força exercida por um animal capturado fosse directamente proporcional ao aperto exercido pelo laço, isto é, quanto mais força fosse aplicada pelo animal para fugir, mais apertado ficava o laço.

Para além das armadilhas supracitadas, é fulcral salientar também a utilização de gaiolas, aves de rapina, entre outros objectos/animais. Se o uso de aves de rapina se insere na citada caça de volataria, as gaiolas, por sua vez, permitiam a captura de animais sem os ferir ou matar, assim como as próprias redes. Estas eram usadas, por exemplo, na caça aos pombos.

A caça de grande porte

Por fim, a caça de grande porte praticada, como afirmámos, pelo monarca e pelos sectores aristocráticos, fazia uso do laço, dos projécteis das bestas, assim como de um tipo de armadilha, o cepelho, que as fontes tardo-medievais, no entanto, não definem.

Sem entrar em conjecturas, não é de todo errado avançar com a ideia de que o cepelho fosse uma armadilha do tipo do cepo, embora com dimensões, ou estrutura, diferente.

Num documento da Chancelaria de D. Duarte (1433-1438), o monarca concede a Afonso Vasques, seu ouvidor, morador em Montemor-o-Novo, coutada a uma propriedade que tinha nessa região.

O texto refere que ninguém podia entrar na propriedade, coutada, de Afonso Vasques para

– colher bolotas,

– beber água,

– ou armar «hi armadilhas nemhuas de veados», facto que atesta, efectivamente, o uso daqueles instrumentos para animais de grande porte.

Fonte: Nova Augusta – Revista de Cultura – nº18 – 2006 (pág. 41-47) | Torres Novas (texto editado e adaptado) | Imagem

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