D. João VI, o Clemente, Rei de Portugal

D. João VI (1767-1826) – Rei de Portugal

Nada propenso, por índole temperamental e carências intelectuais, para o ofício de reinar, o infante D. João, filho segundo da rainha D. Maria I e do rei-consorte D. Pedro III, viu-se investido, em 1788, na dignidade de herdeiro do trono de Portugal, por morte de seu irmão mais velho, D. José.

Foi-lhe assim imposta uma missão que teve de suportar arduamente até à morte, num dos períodos de mais agitada e perturbada vida histórica nacional

A rainha sua mãe enlouqueceu em 1792 e D. João teve de assumir a direcção régia, primeiro a título interino, a partir de 1799 como regente oficialmente proclamado, e só depois de 1816, pela morte de D. Maria I, como rei de Portugal e, então ainda, como imperador do Brasil [elevado a reino em 1815].

Homem de «espessa figura», como lhe chamou Oliveira Martins, «com o seu olhar vago na imóvel contemplação da régia ociosidade», foi o joguete dos cortesãos influentes e, sobretudo, das dramáticas circunstâncias em que se viu envolvido.

Sendo por sua natureza tolerante e benévolo, teve de patrocinar um regime fortemente autoritário de combate à ideologia liberal e constitucionalista que se infiltrou inevitavelmente no País desde a vaga de fundo da Revolução Francesa.

Pina Manique, o implacável intendente da Polícia, foi o símbolo actuante da primeira fase da governação de D. João VI.

Em 1801, com a Europa revolvida pelo agressivo imperialismo napoleónico, ocorreu uma breve guerra com a Espanha – a ridícula «guerra das laranjas» – pela qual se perdeu Olivença.

As invasões napoleónicas e a fuga para o Brasil

Em 1807, Napoleão decidiu dividir Portugal em parcelas e mandou invadir o País por um exército comandado por Junot, que ocupou Lisboa sem resistência. E a corte portuguesa, para não ser aprisionada, embarcou para o Brasil, acompanhada por um imenso séquito, ali se mantendo até 1821.

Nesse ano regressou D. João VI a Portugal, jurando cumprir a Constituição resultante da revolução liberal de 1820. Iniciou-se logo depois uma sucessão de agitações e golpes político-militares entre os quais o fraco monarca foi jogado como peça passiva que a tudo se sujeitou.

Em 1823, o movimento da Vila-Francada restabeleceu o poder real absoluto, que D. João VI procurou moderar com diligências conciliatórias, logo invalidadas por novo golpe, a Abrilada, em 1824, igualmente encabeçada pelo infante D. Miguel e pela rainha Carlota Joaquina. D. João VI viu-se, então, obrigado a desterrar a rainha para o Ramalhão (Sintra) e a prendê-la, depois, em Queluz.

Nova reviravolta fez expatriar D. Miguel, seguindo-se um período de indecisões em que avultava o problema da independência do Brasil, proclamada em 1822.

D. João VI faleceu em 1826

Em 1826, faleceu o rei, inglório e desorientado títere de uma época em que não soube nem quis impor uma linha de conduta coerente.

E, como significativa herança final, deixou ainda a incerteza sobre a sua sucessão, que foi disputada entre o primogénito D. Pedro, imperador do Brasil, de que abdicou para reivindicar o trono português a favor de sua filha D. Maria da Glória (D. Maria II), e D. Miguel, em longa luta que só findou com a vitória do primeiro e instauração da Carta Constitucional, em 1834.

Em todo aquele revolvente processo de evolução do País, foi D. João VI um frágil resíduo do antigo regime, movido pelos homens e pelos factos sem lhes imprimir a menor marca da sua passiva personalidade.

Fonte: Dicionário Enciclopédico da História de Portugal (vol.1) Texto adaptado e ampliado| Imagem: O Grande Livro dos Portugueses

D. João VI, o Clemente, Rei de Portugal
D. João VI, por Domingos António de Sequeira. Lisboa. Museu Nacional de Arte Antiga

 

Se quiser receber no seu email os novos artigos publicados, subscreva a nossa Newsletter!

Mantemos os seus dados privados e nunca os partilharemos com terceiros.
Leia a nossa Política de privacidade.