A Sinonímia relacionada com o património vegetal

A Sinonímia e o património vegetal

Longe da cientificidade universalista de Lineu e demais discípulos da Botânica, a atribuição dos nomes às plantas sofre uma diversificação consoante as populações.

Consultando bibliografia especializada aprendemos que alguns nomes populares eram atribuídos de acordo com as propriedades medicinais das plantas.

É do conhecimento de todos, por exemplo, que a noz, devido às semelhanças que o fruto mantém com o cérebro, era aconselhada para situações de amnésia e fadiga intelectual.

pulmonária  (Pulmonaria officinalis), devido às características das folhas seria benéfica para os pulmões e a quelidónia (Chelidonium majus), é também denominada por erva-das-verrugas pelo facto do látex ser usado como tintura para os cravos, ou verrugas.

É, ainda, interessante considerar aqueles endemismos precisos de sub-denominações regionais que aqui encontramos.

Vejamos: o género Plantago é conhecido comumente por tantagem ou tentage, mas nalguns locais estes nomes parecem desconhecidos, chamando-lhe xinchais  (Plantago major).

alecrim  (Rosmarinus officinalis) é conhecido na região da Beira Transmontana por alicrizeiro.

Aproveitamos para lembrar que o nome vulgar rosmaninho atribuído a outra espécie (Lavandula pedunculata) anda trocado com o nome botânico do alecrim. Razão têm os bragançanos de lhe chamar arçã.

Encontrar as razões de origem para esta atribuição dos nomes populares dados às plantas é com certeza um nobre objectivo para a Etnobotânica.

O mesmo poderemos dizer das derivações toponímicas de lugares, ou sítios, associadas às plantas.

Verificamos que as mais significativas derivações toponímicas se relacionam com aspectos geológicos marcados pela abundância de rochas ou linhas de água, porém, encontramos muitos exemplos figurativos de relação com o mundo vegetal.

Nomes de localidades e ralação com plantas

As aldeias de Nagosa e Nagoselo viram nascer o seu nome do étimo latino Nux que significa Noz, pela abundância de nogueiras existente naquelas paragens.

Também Soutosa, berço do grande Aquilino Ribeiro, mantém relação com os soutos de castanheiros, aliás abundantes em todo o concelho de Moimenta da Beira.

Muitos outros nomes de povoações têm origem em nomes de plantas como por exemplo,

– Codeçoso (codeço),

– Ervedosa e Ervedeiro (érvedo, êrvodo ou medronheiro),

– Sanguinhedo (sanguinho),

– Teixeira (teixo),

– Soutêlo (souto),

– Rebordelo, Rebordosa e Rebordaínhos (roble ou carvalho – Quercus robur),

– Címbres (zimbres ou zimbreiro),

– Alecreira (alecrim),

– Estevaninhas (esteva),

– Abrunhões (abrunheiro),

– Solveira (sorveira),

– Arruda (ruda),

– Loureiro (louro), etc.

E já em tempos antigos…

Podemos, ainda, referir a origem da Granja do Tedo, Granja Nova, Granja do Paiva e Granjinha.

Estas denominações derivam de “Granja“, do francês “Granje“, termo introduzido pelos Monges de Cister que aqui se instalaram edificando magníficos Mosteiros como são os casos de Salzedas e de S. João de Tarouca.

A palavra “granje” vem do étimo latino “granum“, que deu também grão e que significa exploração rural pertencente a um mosteiro.

De resto, o saber conventual, representou, desde sempre, uma mais-valia na expansão dos conhecimentos que a humanidade vem permutando sobre a hortifloricultura e em especial sobre a utilização das plantas como elementos fitoterápicos.

Também “Cever“, hoje escrito “Sever“, diz-se poder derivar de “Cibaria“, que significa um nome de um produto granulado parecido com cevada.

Bento da Guia, estudioso da região da Beira Transmontana, adianta-nos ainda que Sarzedo pode ter relação com “cerejas“, de acordo com a abundância deste fruto, apesar de não nos dar o percurso dessa derivação.

Existe um lugar em pleno planalto serrano da Nave na mesma região da Beira Transmontana, denominado Orca das Carquejas que faz a mistura toponímica entre a Geologia e a Botânica.

Orca, ou Arca, significa amontoado de pedras que fazem marco, ou marcação de um local, instalado em sítio baldio ditado pela expressividade da Carqueja ainda hoje utilizada para lenha, para a “cama” dos animais e ainda para fazer o famoso e calmante “Chá de Carqueja“.

A “Orca das Carquejas“, integra um circuito megalítico, implantado no Planalto da Nave, de extremo interesse cultural e de esmagadora beleza natural.

Fonte: “Etnobotânica – Plantas bravias, comestíveis, condimentares e medicinais“, José Alves Ribeiro, António Monteiro e Maria de Lurdes Fonseca da Silva (texto editado e adaptado)