Ciências médico-populares em 1868

Não houve em Portugal mais prestigioso no género que o Almanaque de Lembranças, vigente na segunda metade do século XIX.

Aberto à colaboração de toda a gente, dos minhotos aos timorenses, passando pelos brasileiros, o Almanaque de Lembranças constituiu-se num repositório de cultura universal.

Hoje como naquele tempo, continuam a ter interesse etnológico-sociológico os artigos e correspondências do género medicinal que achámos útil seleccionar no referido almanaque referente ao ano de 1868.

Escusado será chamar a atenção para o aspecto anti supersticioso.

Remédio contra a erisipela

Ensinou-mo uma curandeira que o tem por infalível: toma-se uma chávena e lançam-se-lhe dentro nove gotas de água, outras tantas de azeite e nove pedras de sal.

Feita esta mistura, tomam-se nove rebentões de sabugueiro que se mergulham naquele elixir e, enquanto com isto se vai besuntando a cara do paciente, diz-se o seguinte responso:

«Pedro Paulo foi a Roma,
Jesus Cristo o encontrou,
E ele lhe perguntou:
– Pedro Paulo, que vai por lá?
Muita malina e erisipela.
– Pedro Paulo, torna lá
Talha-a com ervilhas do monte,
Águas da fonte,
Azeite bento
Que alumie ao SS. Sacramento

Esta oração é dita nove vezes, rezando-se no fim de cada uma um pater noster em voz alta.

No fim de nove dias, o padecente está infalivelmente curado da moléstia!

E vá um homem dissuadir esta gente destas e outras crendices!

(A. Magalhães Alves Júnior)

Receita contra os carbúnculos

Farinha de centeio ……………… 2 onças
Pedra hume calcinada ……….. 1 onça
Gemas de ovos ………………….. 2
Mel, quanto baste para fazer cataplasma.

No decurso de muitos anos tem sido experimentada muitas vezes nesta localidade e sempre com feliz resultado.

Quando aplicado a tempo, o remédio é infalível.

(M.- Galveias)

Cura milagrosa

Quando em Minde, concelho de Porto de Mós, alguma pessoa se vê atacada de cobrão (borbulhas na pele, precedidas pela passagem de bicho ou cobra) recorre a certas mulheres de virtude ou curandeiras, que as há em toda a parte, para lho deitar fora.

A cura consiste no seguinte: fazem um misto de pólvora, alhos pisados e vinagre e depois, em forma de cruz, passam três vezes por cima da parte enferma com as costas de uma faca, acompanhando as cruzes com estas palavras: «Eu te corto, corvo, cabeça e rabo e corpo todo

Depois, pegando num ramo de alecrim molhado no tal misto de vinagre, e aspergindo, continuam: «Quando S. Bento era estudante, nenhum bicho ia para diante na mesma escola andava S. Brás; aqui te seques, aqui te mirrarás

Repetida esta operação pelo espaço de nove dias, desaparece, dizem eles, o tal cobrão.

(D. Maria do Rosário Manata e Silva)

Remédio contra a dor de cólica

Tenho ouvido preconizar diferentes remédios para a dor de cólica sendo um deles o chá da casca de pepino e outro o beber bastante água morna com um fio de azeite, até promover o vómito.

O remédio porém de que tenho presenciado maravilhas, que é mais simples que qualquer daqueles e que está ao alcance de qualquer pessoa, consiste em pisar uma cabeça de alhos e em aplicar esta massa sobre o umbigo do paciente.

Este remédio tão simples, e que se encontra em toda a parte, produz muitas vezes uma melhora instantânea.

(D. Eufémia Rosa Martins)

Prejuízos interessantes

É costume em muitas partes da província do Douro e Minho, para melhor e mais depressa levedar a massa, antes de a lançar ao forno, o imprimir-lhe com a mão uma cruz, recitando ao mesmo tempo esta oração:

S.Mamede te alevede,
S. Vicente te acrescente,
S. João te faça bom pão,
E a Virgem Nossa Senhora
Te bote a sua bênção.

Ao incubar uma galinha, é costume aqui o dizer-se:

Em louvor de S. Salvador;
Pra que nasça tudo pitas
E um só galador.

É remédio eficaz contra as sezões o chegar ao pé de um «trovisco macho» e dizer-lhe:

Senhor compadre capitão,
Empresta-me a sua camisa,
Pra eu ir a uma função.

Em seguida descasca-se o trovisco e lança-se a tona ao pescoço do enfermo. A cura é infalível.

Cumpre notar que chamam «trovisco macho» a um pé deste arbusto que se acha isolado e sem companheiro.

Com o mesmo se costumam apegar, como com um santo, muitas pessoas e principalmente mulheres, quando levam aos povoados frutas e outros comestíveis, para ele as ajudar a vender bem e então dirigem-se-lhe nestes termos:

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
Venha daí comigo
Ajudar-me a vender isto.

Cortam-no e colocam-no sobre os cestos ou outros quaisquer vasos onde levam os géneros que pretendem vender.

Ao trovisco atribuem-se grandes virtudes e livra em geral das coisas más.

As feiticeiras, principalmente, não querem nada com ele; fogem-lhe como o diabo foge da cruz.

Há pouco observou um meu irmão pequeno, quando ia para a escola, uma mulher devotamente ajoelhada diante de um, murmurando uma oração que ele não pôde perceber.

Movido de uma curiosidade que é própria das crianças, perguntou-lhe para que rezava ao trovisco.

«Olhe meu menino – respondeu ela – é porque o trovisco livra das bruxas, dos demónios e de todas as coisas más.»

Ó santas gentes! Como havia de rir-se o maganão do Juvenal, se ora vivesse e presenciasse destes factos. entre nós.

(Sousa Leão –S. Pedro de Roriz)

Prejuízos extravagantes

É o Minho uma das províncias mais supersticiosas, mas a Beira de que sou filho, quando a não exceda, pode pelo menos rivalizar com ela.

Eis ai alguns dos prejuízos mais vulgares da Beira:

– Não é só o pio do mocho que indica morte, se se escuta próximo da casa onde houver um enfermo; também, se pela porta da casa em que houver um doente passar um funeral e aquele se não levantar da cama (o que às vezes não é com pequeno sacrifício), temos certa a morte antes de três dias.

– Quando se varre a casa não se lança o cisco para a rua, por que a fortuna segue o mesmo caminho.

– Uivar um cão de noite é sinal evidente que nessa rua está para fugir um filho da casa paterna.

– Se com uma luz na mão se bebe água, entram espíritos no corpo.

– O queijo que é feito no dia da Ascensão serve de medicamento contra as sezões.

– Quem guardar uvas no dia oito de Setembro, antes de nascer o sol, tem-nas frescas todo o ano. (Esta também é fresca!)

– Querendo-se saber se um casamento projectado se há-de efectuar, fazem-se dois pequenos globos de linho em rama e queimam-se a uma luz, acompanhando esta cerimónia das seguintes palavras: «Hoje é lua nova, amanhã quarto minguante: quero saber se o casamento de F… e F… irá avante!»

– Se os globos queimados sobem ao ar, é bom agouro; se, pelo contrário cai um globo ou ambos, é natural que o casamento não se efectue.

– Quem tem amores e quer saber se o objecto amado lhe é afeiçoado, colhe na noite de S. João uma folha de figueira, passa-a três vezes pela chama, dizendo certa oração ao mesmo tempo e vai colocá-la no quintal ou no telhado; se de manhã está orvalhada (o que é muito natural) tem amante fiel; se não está, trata de procurar novos amores (…)

E diga lá Ernesto Peletan que o mundo caminha!

(Joaquim José de Matos)

In “Almanaque fantástico-cómico