José Valentim Fialho de Almeida | Autores Portugueses

Fialho irmana-se com os humildes

O próprio Fialho invoca a sua familiaridade com as classes ínfimas e com os seus sofrimentos; desvanece-se dela; irmana-se com os humildes e alimenta o sonho de os desforrar exprimindo-os. Mas, como «desforra», a sua obra é inexoravelmente autocêntrica, autobiográfica.

Os seus contos, espalhados pelo volume que tem esse nome,

– duplicado do título de Doentios (1881);

– pela Cidade do Vício (1882);

– O País das Uvas (1892).

– e por recolhas póstumas, como A Esquina e Aves Migradoras,

– ora são retratos de boémios, de artistas obcecados por uma estesia, ou por uma obra falhada, como o Funâmbulo de Mármore,

– ou longas e romanescas históricas de mulheres imponderáveis, como Madona do Campo Santo,

– ora anedotas esfuziantes, de bem contadas, como O Tio da América e Los de Manganezes, em que a novelística se socorre da reportagem, do caderno de viagem, da técnica do artigo e do suelto.

Mas o género feliz de Fialho, aquele em que o escritor deixou pequenas obras-primas, é o conto rústico, com a sua breve intriga perfeitamente focada, o ambiente exacto e poderoso, os tipos surpreendidos na conduta exterior e na fala, o sentimento ardente e vivo da paisagem, que nos Novilhos, por exemplo, quase se personaliza e anima – enfim um poder demoníaco de expressão da terra compenetrada com o homem, expressão que cria um estilo surpreendente, entre espiritual e animal, capaz de todos os matizes, apesar dos seus materiais impuros: francesismos constantes, neologismos escusados, imagens e metáforas de mau gosto.

Fialho de Almeida traçou quadros da vida de Lisboa

As mesmas qualidades avultam nas pequenas manchas e quadros da vida de Lisboa que Fialho traçou, e que dão fundo a vidas humildes e poéticas, sobretudo crianças, como o marçanito desse admirável, embora um pouco difuso conto O Roubo e a infância de João, o aprendiz de marceneiro que engana A Ruiva, a filha do coveiro.

Esta extrema sensibilidade de Fialho ao mundo infantil, documentada também no conto rústico Sempre Amigos, um dos mais belos que deixou, alarga-se ainda a breves narrativas como Ninho de Águia, que parecem desprendidas de uma autobiografia que Fialho realizou aqui e além, sem sequência, e que é muito mais impressiva, embora às vezes enfeitada e transposta, do que o trecho declaradamente dado como autobiográfico, o Eu de À Esquina.

Fialho combinou os seus raros dons críticos de esteta e de «costumbrista» com o azedume que a vida lhe deu e que o seu temperamento extremista e romântico transformou num ingrediente do estilo. Assim, tanto a sua crítica literária (artigos sobre Eça de Queirós e Guilherme de Azevedo), como a sua vasta e fragmentada crítica de artes plásticas, de teatro, de exposições, de certames, de costumes, fica afogada num mar de polémica e de sátira.

Os Gatos, publicação periódica e fascicular, em que Fialho levanta tantos problemas, muitas vezes admiravelmente formulados, nem por isso deixam de ser um acervo de galhofas, comentário perpétuo de um desfile de sistemáticos ridículos a que o espectador (neste caso, o autor) acaba por se somar, contagiando-se do processo.

Polémico e caricaturista

Se foi na polémica e na caricatura que Fialho firmou a sua voga de escritor, a verdade é que foi nesse jornalismo violento e impressionista que acabou de arriscar as suas grandes qualidades em vastos e invencíveis defeitos: divagação, incapacidade de estrutura, e acima de tudo uma escrita barroca, tufada, feita de estrangeirismos escusados e de neologismos incríveis.

Mas também é verdade que se lhe desenvolveu aí o nervo da prosa o vigor plebeu da frase, a rapidez e sem-cerimónia que, se atropela os juízos, é uma fonte viva de epítetos excitantes e cores justas.

A obra de Fialho, vasta e múltipla, não terá disciplina nem o sereno vigor que vem de uma construção novelística sólida e sóbria. Mas, pela variedade de géneros por que se distribui, e sobretudo pelo esforço titânico de trânsito de uns a outros, pela verve inesgotável, o poder alternado de impropério e de compaixão, a delicadeza emotiva, o estilo polifónico, ardente, obsidiante, tem um dos melhores lugares na literatura portuguesa.

Fontes: 1 O Grande Livro dos Portugueses ((texto editado e adaptado) | 2 Fialho de Almeida, De À Esquina, in Portugal – A terra e o homem, antologia de textos de escritores dos séculos XIX – XX, por Vitorino Nemésio (texto editado e adaptado) | Imagem

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