Testamentos pitorescos… e nenhum é de um louco!

Testamentos pitorescos…

Testamentos absolutamente válidos foram escritos em cascas de ovos, em pele humana, em bocados de madeira e, pelo menos uma vez, numa unha. Foi um preso que elaborou o minúsculo testamento cortando a unha antes de se suicidar.

No Alasca, durante a febre do ouro, um preso que cumpria demorada sentença, teve a ideia de escrever o testamento numa das paredes da cela.

No processo que se seguiu à morte do homem, os parentes interessados no espólio pagaram as custas da remoção da parede, a qual foi apresentada no tribunal como «prova nº1».

Diz-se que os mais antigos testamentos remontam a 3.000 anos atrás, e os advogados ainda hoje citam o famoso testamento de Aristóteles, escrito no ano 322 a.C.. testamento esse que é um modelo de concisão em fraseologia, não deixando quaisquer dúvidas ou possibilidades de discussão sobre as intenções do testador.

A seguir, damos alguns exemplos de testamentos pitorescos, casos recentes e casos históricos, alguns bem claros, outros bastante confusos.

O testamento mais comprido e outros

Ao que se julga, o mais comprido de todos os testamentos foi o de Phineas T. Barnum, um  dos maiores empresários de todos os tempos.

Sempre falador, quis ainda «falar» demoradamente já depois de morto – e para isso elaborou um testamento composto de 53 páginas, todas escritas em letra muito miúda e muito apertada.

Nesse testamento, dava as mais minuciosas instruções sobre o que deveria ser feito de todos os animais do seu circo, de todos os móveis e de todos os utensílios, incluindo o mastro principal da pista onde flutuava a bandeira.

Na Austrália, no século XIX, um homem de nome Francis Reginald Lord deixou em testamento a sua mulher a importância de um xelim e nada mais, «para que ela se meta no primeiro elétrico para qualquer lugar, onde possa deitar-se a afogar».

Sempre em cena…

Um negociante que viveu em Manitoba, nos fins do século XIX, resolveu atingir na morte aquilo que sempre fora o sonho da sua vida: representar.

Apesar da sua decidida vocação para a arte de Talma, a família opusera-se e mandara o homem em questão trabalhar num escritório, e ali ficara com a cabeça nos números e o coração nos palcos teatrais.

Ao morrer, deixou a maior parte da sua fortuna a um grupo de «furiosos dramáticos» da sua terra natal, com a incumbência de representarem «Hamlet» uma vez por ano (até o dinheiro chegar), devendo o seu próprio crânio figurar na cena do coveiro.

Saber retribuir…

Uma viúva que vivia em Sidcup, no condado de Kent, deixou a banheira, o esquentador e todos os bocados de chumbo que tinha em casa, incluindo o lavatório da cozinha, a um canalizador seu conhecido.

Explicou no testamento que queria assim retribuir a gentileza do canalizador que, durante 25 anos, fizera todas as reparações necessárias sempre de graça.

Fumadores não!

Em New Brunwick, um tal senhor Herbert S. Sharp deixou uma quantia bastante importante à Universidade de Mount Allison, para bolsas de estudo.

Porém, o sr. Sharp era acérrimo inimigo dos fumadores, e manteve esse ódio para além do túmulo.

«Só os não fumadores poderão candidatar-se às bolsas de estudo – dizia o seu testamento – Quem tem dinheiro para fumar é porque pode pagar as despesas da sua educação».

Outros testamentos estranhos

Um dos mais estranhos testamentos feitos neste século foi o de um médico de Nice. Todos os anos é atribuído um prémio ao habitante local que tenha «o nariz mais direito, os pulsos mais estreitos e as mãos maiores».

No seu testamento, o médico estipulou que quem reunisse estes atributos só poderia ganhar o prémio se tivesse cabelo ruivo e sobrancelhas pretas.

Sete lagartos receberam cada um a quantia de 7.000 libras, que lhes foi deixada pela dona, uma senhora que vivia em Margate, na África do Sul.

Segundo o testamento, o marido da senhora só poderia tocar no dinheiro depois da morte dos lagartos.

Pensando em funerais, um negociante de móveis de Norristown, na Pensilvânia, recordou que os membros da sua família só se reuniam em tão tristes ocasiões.

Para contrariar esse hábito, deixou em testamento uma quantia importante para que os seus doze sobrinhos fizessem um cruzeiro magnífico a Havana.

Cláusulas finais

Robert Louis Stevenson, ao morrer numa ilha do Pacífico, legou o dia dos seus anos a uma rapariga que se queixara que, tendo nascido no dia de Natal, ficara desfalcada de prendas de aniversário durante toda a sua vida, pois o pretexto de se juntar as duas festas, apenas recebia uma prenda da família.

No entanto, Stevenson juntou uma cláusula ao testamento. «Se a beneficiária não utilizar convenientemente este legado, os direitos do mesmo reverterão para o presidente dos Estados Unidos».

Porém, uma das cláusulas mais desagradáveis em testamentos foi dirigida à juventude.

Um farmacêutico de Leeds escreveu no testamento que a sua fortuna de 8.000 libras só seria entregue aos filhos quando estes «atingissem a idade do juízo».

Os filhos tinham 28 e 26 anos, e o pai considerou «idade do juízo» a de 50 anos para cima.

Fonte: “Ilustração Portuguesa“, nº 1015, 6 de Setembro de 1958 (texto editado e adaptado) | Imagem