O que é a Semana Santa para os Cristãos?
A Semana Santa
Santa por excelência é a semana consagrada à celebração anual da Páscoa do Senhor. “Semana Maior”, assim chamavam os cristãos à semana em que fazemos a memória solene do mistério central da fé e da vida da Igreja: Cristo morto e ressuscitado para a salvação do mundo inteiro.
“Semana Santa” e “Semana Maior” para a qual se dirige a Quaresma de penitência e de conversão.
Entra‑se nela em procissão, com os ramos na mão, aclamando Jesus Cristo, Rei do universo, que venceu o pecado e a morte. Contudo, do outro lado deste pórtico triunfal, começa a dura caminhada da Cruz que se percorre, seguindo os passos do Servo de Deus que não nos defraudou.
Elevado acima de todas as coisas, recebeu «o Nome que está acima de todos os nomes; para que todos, ao nome de Jesus se ajoelhem nos Céus, na Terra e nos infernos. E toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai» (Fl 2,9‑11).
É o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
O Tríduo Pascal, cujo centro é a Vigília da noite de sábado para domingo, começa na Sexta‑Feira Santa e acaba com as Vésperas do Domingo de Páscoa.
Cada uma das celebrações litúrgicas destes três dias realça, especialmente, um aspeto do mistério de Jesus Cristo, o Senhor: a morte, a ressurreição, a glorificação e a presença no meio de nós.
As grandes celebrações destes dias santos manifestam a sua unidade e permitem‑nos participar nesse mistério.
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Semana Santa, semana santificadora
Semana Santa, semana santificadora, em que nos deixamos guiar pela liturgia, prolongada na meditação e oração pessoais, para que somos convidados por textos e por ritos de uma riqueza de conteúdo e uma densidade espiritual inesgotáveis. «Suba a minha oração como incenso à Vossa presença e (seja) a elevação das minhas mãos sacrifício vespertino.»
Todo o cristão reconhece que deve entender‑se isto na mesma Cabeça, pois ao declinar o dia, já ao fim da tarde, o Senhor, que de novo voltaria a tomar a Sua alma, entregou‑a na Cruz voluntariamente; no entanto, também nós estávamos personificados.
Que pendia d’Ele no madeiro da Cruz? O que tomou de nós. Como podia Deus Pai desdenhar e abandonar por algum tempo o Seu Filho Único, que é um só Deus com Ele?
Contudo, pregando na Cruz a nossa fraqueza, na qual, segundo diz o Apóstolo, «foi crucificado com Ele o nosso homem velho», clamou com a voz deste homem, dizendo: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?»
Depois daquele sacrifício da tarde, a Paixão do Senhor, a Cruz do Senhor, a oblação da hóstia salutar, é um holocausto agradável a Deus. Aquele sacrifício vespertino converteu-‑se em dom matutino na ressurreição.
Graças a Ele, a oração que sobe pura do coração piedoso, eleva‑se como incenso de altar sagrado. Nada é mais deleitável que o perfume do Senhor; exalem este perfume todos os que crêem. (Santo Agostinho, Ennarrationes in Psalmos, 140,5)
Para ler: O que é a Quaresma? Tempo de conversão…
Domingo de Ramos na Paixão do Senhor
No século IV, em Jerusalém, no domingo antes da Páscoa celebrava‑se uma liturgia que durava todo o dia e que inaugurava o que se conhecia como a “Semana Maior”.
Depois da Missa, que se celebrava como de costume, o bispo e todo o povo dirigiam‑se para a igreja situada no monte das Oliveiras (a Eleona), onde se proclamava o Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém.
Depois, seguia‑se a procissão até à Basílica da Ressurreição (Anastásis), onde, embora já tarde, se cantava o ofício vespertino, chamado “lucernário”.
À saída desta celebração, o arcediago anunciava que todos os dias da semana a assembleia se reuniria na primeira hora da tarde, «às três», na igreja principal, o Martyrium, levantada no Gólgota.
Em Roma, pelo contrário, no tempo do Papa São Leão Magno (440-461), a Semana Santa começava de maneira muito sóbria, com uma Missa dominical durante a qual se lia o Evangelho da Paixão segundo São Mateus.
Mais tarde, a instâncias dos peregrinos de Jerusalém, esta Eucaristia seria precedida pela Procissão dos Ramos que, desde a sua introdução, teve no Ocidente o carácter de um cortejo triunfal em honra de Cristo Rei.
Para «fazer como em Jerusalém», esta celebração manteve, por muito tempo, o carácter de evocação histórica. Sobrecarregada durante a Idade Média com elementos de diversa procedência, e simplificada por ocasião da Semana Santa, em 1955, adquiriu a partir da reforma de 1970 uma grande sobriedade.
Nada distrai do verdadeiro significado desta procissão litúrgica.
Manteve‑se a bênção dos ramos, mas pode ser substituída por uma oração que fala unicamente em aclamar «Cristo vitorioso» e em que se pede que «permaneçamos n’Ele, dando fruto abundante de boas obras».
Para ler: Encomendação das Almas – Tradições da Quaresma
A leitura do Evangelho mostra o sentido e o alcance da Procissão dos Ramos
No entanto, é a leitura do Evangelho que mostra, de maneira mais explícita, o sentido e o alcance da Procissão dos Ramos. Lê‑se alternativamente o relato da entrada de Jesus em Jerusalém segundo São Mateus (Ano A), São Marcos ou São João (Ano B) e São Lucas (Ano C).
Cada ano interpreta o acontecimento do ponto de vista particular, mas todos dizem, com palavras quase idênticas, que o próprio Jesus Se encarrega de preparar as coisas. Estas precisões, cujos pormenores evocam os oráculos proféticos, manifestam discretamente o verdadeiro sentido da «entrada gloriosa» de Jesus na cidade da Sua Páscoa de morte e ressurreição e fazem pensar na minuciosa preparação de uma liturgia.
Trata-se, evidentemente, de um acontecimento, de um «mistério», e não de um simples episódio da vida de Jesus, por mais memorável que pudesse ser.
A seguir, vem a Missa da Paixão, assim chamada pelo Evangelho proclamado neste domingo.
Durante mais de quinze séculos foi sempre o de São Mateus.
Na atualidade, proclamam‑se também o de São Marcos (Ano B) e o de São Lucas (Ano C), anteriormente reservados, respectivamente, para a segunda e terça‑feira seguintes, e conservando a Paixão segundo São João o seu lugar tradicional, em Sexta‑Feira Santa.
Tal como atualmente se encontra estruturada, a liturgia extremamente sóbria do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor é um pórtico notável da Semana Santa e, especialmente, do Tríduo Pascal, que constitui uma unidade litúrgica, uma única celebração – como se poderia dizer – da Páscoa do Senhor, que decorre durante três dias.
O acento vai passando sucessivamente de um elemento para outro, mas sem nunca os separar. Por isso, na Sexta‑Feira Santa, a liturgia da adoração solene da Cruz tem ressonâncias pascais comoventes.
Para ler: O Jogo da Reza – Tradições da Quaresma
Domingo de Ramos na Paixão do Senhor dá o tom
A celebração do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor dá o tom, por assim dizer.
A assembleia cristã vai ao encontro do Senhor que aclama como Rei do universo. E segue‑O até ao Calvário, onde, morto na Cruz, Deus O levanta acima de todas as coisas, «para que todos, ao nome de Jesus se ajoelhem nos Céus, na Terra e nos infernos e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai» (Fl 2,8‑11). Hossana nas alturas!
Para ler: A Quaresma, antigamente, no Alto Douro
Quinta‑Feira Santa da Ceia do Senhor
A Ceia do Senhor, na tarde de Quinta‑Feira Santa, é a primeira celebração do Tríduo Pascal.
Segundo a tradição mais antiga, recolhida por São Paulo (1Cor 11,23), «o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue», tomou o pão e, depois, o cálice cheio de vinho e disse: «Isto é o meu corpo», «este é o cálice do meu sangue», «fazei isto em memória de Mim».
Por isso, de cada vez que comemos deste pão e bebemos deste cálice proclamamos a morte do Senhor até que volte.
A Ceia do Senhor celebrou‑se nas comunidades cristãs desde os começos, como testemunha também o Livro dos Actos dos Apóstolos (Act 2,42).
A celebração da Ceia do Senhor que incluiu sempre o relato do que Jesus tinha feito e dito «quando ia ser entregue à sua Paixão, voluntariamente aceite», seguido da comunhão no pão e no vinho, corpo e sangue de Cristo (2Cor 11,27‑28),foi evoluindo ao longo dos séculos.
Inicialmente, quem presidia à “assembleia” litúrgica, também chamada synaxis, tinha uma ampla margem de iniciativa. Mas isto durou pouco tempo.
Quase logo, foi preciso codificar a maneira de atuar. Por um lado, realizar celebrações sempre novas só está ao alcance de muito poucos; a maioria necessita de um suporte para “improvisar”.
Então, difundiram‑se alguns formulários de grande qualidade que serviam de ponto de referência. Por outro lado, sobretudo em períodos de controvérsia, era preciso velar pela ortodoxia dos textos litúrgicos.
Para ler: Semana Santa em Braga – Tradições da Quaresma
Origem das Orações Eucarísticas
É essa a origem das “Orações Eucarísticas”, também chamadas anáforas, ou seja, “oblações”.
Na Igreja latina, a partir do século IV, impôs‑se um modelo exclusivo, o Cânone Romano, até que o missal posterior ao Concílio Vaticano II reconheceu várias “Orações Eucarísticas”.
Deste modo, recuperou‑se alguma flexibilidade que permite adaptar‑se às diversas assembleias. Mas, hoje como ontem, no Oriente e no Ocidente, é sempre a mesma Eucaristia que se celebra «em memória do Senhor», repetindo, como Ele pediu, o mesmo que Ele fez «na véspera da sua Paixão».
A celebração da «Ceia», na Quinta‑Feira Santa, não difere da Eucaristia dos outros dias do ano. Mas tem um valor exemplar. Ao recordar o que o Senhor fez na Última Ceia com os Seus discípulos, acrescenta‑se «hoje».
De facto, amanhã será o dia dedicado à Paixão. Mas esta maneira de falar tem um sentido absolutamente geral. Cada vez que a Igreja celebra a Eucaristia e os outros sacramentos, de que ela é fonte, renova‑se para nós, hoje, por obra do Espírito Santo, a obra de Deus, que Cristo realizou de uma vez para sempre.
O que Jesus fez, num dia, é sempre atual e novo, embora se repita indefinidamente. Efetivamente, em cada celebração litúrgica e, especialmente, em cada Eucaristia, acontece para nós, aqui e agora, a Salvação que Deus realiza desde o princípio.
Cristo está presente. Atua por meio de sinais eficazes e pelo poder do Espírito.
Para ler: A Serração da Velha – Tradições da Quaresma
O Livro do Êxodo
A leitura do Livro do Êxodo recorda que a Eucaristia mergulha as suas raízes na liturgia ancestral da Páscoa judaica, o que manifesta claramente o seu carácter tradicional, ao mesmo tempo que a sua absoluta novidade.
O Evangelho de São João conta que Jesus, durante a Sua Última Ceia com os discípulos, «antes da festa da Páscoa», tirou o manto e lavou‑lhes os pés.
Para que Pedro aceitasse que o Senhor Se rebaixasse deste modo, foi necessário que Ele lhe dissesse: «Senão te lavar, não terás parte comigo»; acrescentando: «Eu dei‑vos o exemplo para que assim como Eu fiz, vós façais também.»
Este «mandato», semelhante ao que o Senhor deu a propósito do pão e do cálice, refere‑se à missão e ao comportamento recíproco dos discípulos.
Mas o evangelista introduz o relato dizendo: «Jesus,[…] que amara os seus, que estavam no mundo, amou‑os até ao fim.»
Como não ver neste gesto insólito do Mestre uma pregação prática do amor, lei fundamental da comunidade cristã, de que a Ceia do Senhor é fonte e exigência?
Deste modo, a liturgia de Quinta‑Feira Santa celebra a Eucaristia, memorial da Páscoa de Cristo, sacramento do Seu amor infinito por nós e do amor que devemos ter uns aos outros, e a instituição do ministério sacerdotal, que se deve entender e exercer, seguindo o exemplo do Senhor, como serviço aos irmãos da comunidade.
Para ler: Tradições da Quaresma nas Beiras
Sexta‑feira Santa da Paixão do Senhor
A liturgia da Sexta‑Feira Santa tem a sua origem em Jerusalém.
No Diário de Viagem de uma cristã chamada Egéria, conta‑se como decorria lá este dia em finais do século V.
Depois de uma noite de vigília no monte das Oliveiras, de manhã muito cedo, descia‑se para o Getsémani para ler o relato da prisão de Jesus. Dali ia‑se até ao Gólgota.
Depois da leitura dos textos sobre a comparência de Jesus diante de Pilatos, cada um ia para sua casa para descansar um pouco, passando antes pelo monte Sião para venerar a colunada flagelação.
Pelo meio‑dia, havia novo encontro no Gólgota para venerar o madeiro da Cruz: leitura durante três horas dos textos do Antigo e do Novo Testamento, alternando com salmos e orações. O dia acabava finalmente na Igreja da Ressurreição, Anastasis, onde se lia o Evangelho da deposição de Jesus no sepulcro.
Os primeiros testemunhos
Os primeiros testemunhos da liturgia de Sexta‑Feira Santa em Roma datam do século VII.
O Papa dirigia‑se à Basílica da Santa Cruz, onde se lia o Evangelho da Paixão segundo São João, seguido de uma ladainha de intenções universais. Nas igrejas situadas fora da cidade e assistidas por sacerdotes havia uma celebração mais popular:
– exposição da cruz sobre o altar;
– liturgia da Palavra como na Basílica da Santa Cruz;
– depois do Pai Nosso, adoração da cruz e comunhão do pão e do vinho consagrados no dia anterior.
No século VIII, introduziu‑se na liturgia papal a adoração da cruz, mas sem comunhão.
No século X, uniram‑se os dois modos de celebrar.
No século XIII, decidiu‑se que só comungava o celebrante e, no século XVI, que a celebração se fizesse de manhã. Mas nem por isso se deixou de «santificar» o resto do dia: na maioria das igrejas, o povo reunia‑se, frequentemente em maior número do que de manhã, para a Via‑Sacra e o «sermão da Paixão».
Assim, se fez até 1955; a partir desta data, a Igreja romana celebra a liturgia da Paixão na tarde de Sexta‑Feira Santa.
A celebração após 1955
A celebração começa com um momento de oração silenciosa e uma “oração” pronunciada pelo celebrante. Tem três partes:
– a liturgia da Palavra com a oração universal,
– a adoração da cruz e a
– liturgia da comunhão.
A liturgia da Palavra forma como que uma espécie de tríptico.
A primeira leitura apresenta o rosto de uma personagem misteriosa, um justo submetido aos piores sofrimentos e vítima das mais odiosas perseguições, desprezado pelos homens e, aparentemente, abandonado pelo próprio Deus. Na realidade, oferece‑Se em sacrifício de expiação pelo pecado dos homens e o Senhor torná-lo‑á chefe de um povo incontável de justificados.
Qualquer que seja a identidade do «servo de Deus» no Livro de Isaías (52,13-53,12), faz pensar, sobretudo na Sexta‑Feira Santa, em Cristo, o Justo ultrajado, cuja morte salvou todos os homens do pecado e que Deus exaltou na glória do Céu.
Na segunda leitura pode ver-Se Jesus, o Cristo, entronizado junto de Deus como «um grande Sumo sacerdote» que, pela Sua obediência, «Se tornou, para todos aqueles que Lhe obedecem, causa de salvação eterna» (Hb 4,14‑16;5,7‑9).
Estas duas leituras, escritas à distância de vários séculos, introduzem‑nos admiravelmente na compreensão da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo que ocupa o centro do tríptico (Jo 18,1‑‑19,42).
O Evangelho, a oração universal e a Comunhão
O evangelista João quis oferecer o sentido profundo dos acontecimentos de que foi testemunha. Paradoxalmente, é na Cruz que Jesus Se manifesta como o Vivente que dá vida abundante a todos os que «olham para Ele».
Então, surge espontaneamente da assembleia a oração universal, para que a Paixão do Senhor produza os seus frutos para todos, até aos confins da terra. Depois, vem a adoração da cruz que tem evidente acentuação pascal, porque nunca se podem dissociar a morte e a ressurreição de Cristo.
A comunhão do pão consagrado no dia anterior encerra esta celebração austera e, ao mesmo tempo, vibrante de esperança. Todos se retiram em silêncio, não para chorar a morte de Cristo, mas para meditar no seu mistério e se preparar, no recolhimento, para a alegria do Aleluia que ecoará na Vigília Pascal.
Sábado Santo
O Sábado Santo é um dia absolutamente especial dentro do Ano Litúrgico.
As igrejas e os altares despojam‑se dos seus ornamentos habituais, e o sacrário fica vazio. Não há nenhuma celebração, além da Liturgia das Horas. A comunhão só se pode administrar na forma de Viático. É uma jornada de meditação, de deserto e de silêncio.
Depois da morte e da sepultura do Senhor, as mulheres que O tinham acompanhado desde a Galileia voltaram para as suas casas.
Nas horas que precederam o sábado, tinham preparado aromas e perfumes com a intenção de ir embalsamar o Seu corpo, logo que terminasse o repouso sabático, que cumpriram rigorosamente (Lc 23,55‑56).
Por seu lado, os Apóstolos e um pequeno grupo de discípulos encerraram‑se numa casa «com medo dos judeus» (Jo 20,19).
Os evangelistas não dizem nada dos seus pensamentos e sentimentos, mas tudo parece indicar que, sobre uns e outros, se tinha abatido um silêncio de morte. O silêncio que hoje, Sábado Santo, envolve a comunidade dos cristãos é diferente.
A Liturgia da Sexta‑Feira é já celebração pascal; é evidente na adoração da Cruz.
Encontro marcado
Antes de abandonar a igreja, os fiéis marcam encontro para o dia seguinte à noite, para outra celebração: a da ressurreição de Cristo, que se proclamará, com alegria transbordante, na Vigília Pascal.
No silêncio do Sábado Santo, a Igreja medita no mistério da Paixão de Cristo, morto pela salvação de todos os homens, murmurando já no íntimo do coração do Aleluia que logo ecoará.
O Sábado Santo continua no mundo e ecoa entre a Sua morte e a Sua ressurreição, mas os que estão encerrados no fundo e não podem dormir ouvem que lá mais abaixo se abrem diante de Cristo as portas do abismo.(J.‑P. Lemaire, L’exode et la nuée, Gallimard, Paris 1982, p. 61)
Vigília Pascal
Na tradição judaica, os dias contam‑se de um pôr‑do‑sol ao outro, e não a partir da meia‑noite.
Esta maneira de dividir o tempo manteve‑se na liturgia da Igreja: as solenidades começam ao entardecer, com as primeiras vésperas e acabam com as vésperas do dia seguinte.
Dado que, segundo o testemunho dos evangelistas, a ressurreição do Senhor teve lugar ao amanhecer «do primeiro dia da semana» – a que hoje chamamos domingo –, os cristãos, desde os começos, celebraram o memorial semanal desde a noite anterior.
Nos primeiros séculos…
Desde o século II, impôs‑se uma celebração anual, preparada por um jejum que durava um ou vários dias. Desde o século IV, a noite Pascal caracterizou‑se pela grande celebração anual dos batismos, desenvolvendo‑se a sua liturgia, sob a influência de diversas tradições, até ao século XIII.
Em Roma, ainda no século V, não há mais do que uma celebração pascal, a da noite, como testemunham as homilias do Papa São Leão (440‑461).
Mas em África, no tempo de Santo Agostinho (354‑430), celebrava‑se já uma segunda Missa no domingo de manhã. O bispo de Hipona não deixava de pregar nela, apesar – dizia ele – do cansaço da longa vigília noturna.
Este costume difundiu‑se posteriormente: conservam‑se livros litúrgicos do século VII que contêm textos da Missa do Domingo de Páscoa.
No entanto, logo a seguir, começou a antecipar‑se a Vigília Pascal.
E quando o Concílio de Trento (1545‑1563) proibiu a celebração da Missa depois do meio‑dia, a celebração passou para a manhã de Sábado Santo. Assim foi até 1951, quando voltou ao seu lugar original, primeiro «como experiência» e a juízo dos bispos e, desde 1956, de maneira definitiva.
A quatro partes da Vigília Pascal
Na sua forma atual, a Vigília Pascal consta de quatro partes claramente diferenciadas.
Começa com o lucernário, o rito da luz: bênção do fogo novo em que se acende o Círio Pascal, cuja chama passa imediatamente às velas que os membros da assembleia levam na mão. Vem depois o anúncio solene da Páscoa, saudada com um canto de aclamação.
Depois, celebra‑se uma liturgia excecionalmente longa.
Trata‑se de uma recapitulação da catequese que se fez aos catecúmenos e recorda as grandes etapas da História da Salvação que precedeu e preparou o advento da «luz verdadeira que ilumina todos os homens» (Jo 1,9).
Depois de sete grandes textos do Antigo Testamento, lê‑se uma breve passagem da Carta de São Paulo aos Romanos, a que se segue a proclamação do Evangelho da ressurreição segundo São Mateus (Ano A), São Marcos (Ano B) ou São Lucas (Ano C).
A terceira parte é constituída pela liturgia batismal: bênção da água, Profissão de Fé, batismos e confirmações, se for o caso, ou aspersão da assembleia com a água lustral.
Finalmente, vem a quarta parte, a liturgia da Eucaristia que se realiza como de costume.
Está prescrito que a Vigília Pascal não se inicie antes de começada a noite.
Trata‑se evidentemente de uma exigência de autenticidade dos ritos e símbolos, que caracterizam esta grande liturgia e que lhes confere a sua extraordinária força expressiva e o seu incomparável valor espiritual.
Bela a luminosa solenidade!
Que todo o homem piedoso e amante de Deus goze desta bela e luminosa solenidade. Que todo o servo fiel participe da alegria do seu Senhor. Que quem se esforçou por jejuar receba agora o salário que lhe corresponde.
Quem trabalhou desde a terceira hora que celebre esta festa com gratidão. Se alguém só chegou à sexta hora que não duvide, pois não perderá nada. E, se alguém se atrasou até à nona hora, que não sinta vergonha pela sua tibieza porque o Senhor é generoso e dá ao último o mesmo que ao primeiro…
Saboreai todos o banquete da fé. Saboreai todos as riquezas da misericórdia. Que ninguém se queixe pela sua pobreza, pois apareceu o nosso Reino comum. Que ninguém se lamente pelos seus pecados, pois da tumba brotou o perdão. Que ninguém tema a morte, já que a morte do Salvador nos libertou…
Cristo ressuscitado de entre os mortos tornou‑Se como primícias dos que morreram. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amen. (São João Crisóstomo, Sermão para a Vigília de Páscoa).
Na liturgia bizantina, lê‑se este texto ao princípio da celebração.
Fonte: Missal Paulus, pp. 477-480.533-534.541-542.558-560. | Imagem

